Um Olhar Cético

Por uma ética da internet

Dois mil e dezesseis é um ano que começou com tudo. Já na virada, li diversos relatos, denúncias, textões e fotos de fontes “problematizadoras. Um deles tomou certa proporção e foi uma história bastante curiosa: Wellington Monteiro, um segurança em um evento de Reveillon, foi acusado, via textão de facebook, de ter estuprado uma moça em uma festa. Acusações criminais, ao contrário do que o imaginário estabelecido dentro de certos movimentos corporativistas de gênero, são levadas a sério pelo nosso sistema judiciário. No entanto, algumas acusações, especialmente de crimes hediondos (e o estupro tem se mostrado, no meio do corporativismo de gênero, o crime mais hediondo existente e o que mais abala emoções) são levadas a sério não apenas pelo sistema judiciário (ok, eu vou fazer uma ressalva, nem sempre é fácil denunciar um estupro, mas quando tal denúncia é encaminhada e feita com seriedade para autoridades competentes, ela é SIM tratada com seriedade merecida), mas são também levadas a sério pela sociedade civil.

Ok, feita essa pontuação, vamos ao que acontece quando uma pessoa torna esse tipo de ocorrência pública: ao denunciar um crime, você pode escolher se manter não identificado(a) ou fazer uma denúncia pública, que em tempos de facebook se tornou algo ainda mais corriqueiro. Quando se denuncia um crime via textão e o autor do textão é a própria vítima, isso gera um viés absurdo na maioria dos leitores, pois há um conflito de interesses em questão. Vejamos as duas linhas de pensamento mais comuns nesses casos:

  • A vítima está contando uma versão fiel dos fatos e está denunciando os responsáveis pelo crime de forma objetiva;
  • A vítima está distorcendo fatos, está fazendo uma denúncia falsa ou atacando instituições ou pessoas responsáveis pelo ocorrido;

Você se identifica, em teoria, com alguma dessas opções ao ler um textão? Se sim, reveja seu posicionamento. Na primeira delas, você está colocando a vítima num pedestal de objetividade que não está necessariamente ajudando na busca pela verdade. Na segunda opção, acusar a vítima de fazer uma falsa denúncia é não apenas indelicado e insensível, mas também é um ceticismo contraproducente para a verificação da veracidade da acusação. Não parece ser razoável escolher nenhum dos extremos.

Esse foi apenas um exemplo para ilustrar como a tomada de decisões extremadas e a demonização do outro extremo (e junto disso, a demonização de todo o espectro de posições intermediárias) é imbecilizante. Temos mais outros exemplos, como por exemplo o caso ocorrido no Quitandinha, em São Paulo. Se apegar a um dos lados que atende melhor à sua visão e interpretação de fatos, atropelando direitos humanos básicos e negando o próprio processo investigativo são sempre improdutivas.

É por isso que uma ética da internet se faz necessária: já não se trata apenas de postar conteúdo que te interessa. Já não se trata de ter compromisso com a verdade. Já não se trata de tomar atitudes que afetam apenas o dono de determinado perfil. Vidas e reputações podem ser destruídas, reivindicações absurdas são feitas (como a perda de guarda de crianças adotadas, fechamento de bares, prisão e perda de emprego de supostos estupradores) e, do outro lado do espectro, negar a existência de um crime apenas dificulta a vida e a sobrevivência da vítima. Quebrar o silêncio não é fácil e é preciso suporte para que o processo investigativo seja feito. Negar uma denúncia real causa sofrimento e consequências para a vítima, assim como uma reação extremamente emotiva e irracional traz consequências para os acusados de um determinado crime. É preciso não apenas ponderação para optar pelo “meio termo”, mas também para que haja uma autocrítica sobre a consequência das ações tomadas dentro da rede. O conteúdo que consumimos e que produzimos em nossos perfis já não é mais isento de responsabilidade moral e é preciso levar esse debate adiante.

Parece que o jogo virou, não é, Julie Bindel?

Compartilhei, em meu facebook, um texto da Julie Bindel faz um bom tempo – “O feminismo corre o risco de se tornar tóxico” -, porque achei que ele tratava de algo bastante relevante (afinal, ver um astrofísico tendo que chorar e se desculpar publicamente pelas roupas que escolheu usar não me parece algo saudável numa sociedade).

Porém, parece que o jogo virou, não é, Julie Bindel? Em uma entrevista a um coletivo feminista radical, ela mudou da água para o vinho. Não sei se ela quis ser irônica na entrevista, quis fazer uma brincadeira (apesar de que discordo de boa parte dos posicionamentos dela nessa entrevista). Mas a questão é que não me parece razoável, especialmente com a quantidade de pessoas propagando ideias surreais por aí, falar em uma espécie de “asilo”/”prisão” (acho que o termo campo de concentração seria um exagero pro que ela propõe) para homens.

Ainda que se argumente que isso seria uma forma de conter o comportamento inadequado de alguns homens (ou da maioria deles) e que seria uma “troca justa”, fica a pergunta: é esse o tipo de moralidade que desejamos para o futuro da humanidade? Uma espécie de retorno à Lei de Talião? O raciocínio é o mesmo:

1) Um inimigo me fez mal, logo devo retribuir esse mal com uma revanche ou vingança na mesma proporção. O exemplo mais clássico é: se um ladrão furta algo de minhas posses, sou autorizado a cortar suas mãos para que seja impedido de roubar novamente (O que sequer é algo proporcional, porque o ladrão apenas subtraiu um bem; segundo o raciocínio de tal lei, ele deve restituir o que furtou E ser castigado);

2) Um sexo me fez mal e criou um conjunto de regras que oprimiu metade (ou mais) da população mundial durante milênios, logo é justo impedi-los de terem liberdade e serem tratados como prisioneiros com uma espécie de “liberdade condicional” determinada pela mulher.

O problema está aí: falácia de composição. “Alguns homens (ou a maioria deles, se você quer assumir isso) agem contra nossos interesses, logo todos os homens agem assim”. Aliás, não dá pra imputar culpa em um sujeito que nasceu homem mas não teve absolutamente nada a ver com o histórico passado. “Ah, mas ele se beneficia da estruturação patriarcal”. De fato, mas isso não significa que ele seja responsável por ela. Isso não significa que ele deva ser punido individualmente, tampouco significa que deva ser tratado como um prisioneiro em nome do bem-estar coletivo.

Deixo a sugestão de assistirem a série de videoaulas “Justice: What is the right thing to do” do Michael Sandel, em que ele passa rapidamente diversas formas de pensamento dentro da ética. Disponível de graça no YouTube. Um bom começo pra quem não entende nada de ética.

A fosfoetanolamina, post hoc ergo propter hoc

Estou um pouco atrasado para falar sobre o assunto, é claro, mas não poderia deixar de escrever algo sobre a última notícia de cunho científico que teve destaque na mídia do Brasil. Diversos vlogueiros comentaram sobre o assunto e mesmo o Dráuzio Varella teve que fazer uma matéria para esclarecer essa questão nebulosa sobre um dos casos mais mal contados no que se refere à má administração de uma universidade e à irresponsabilidade por parte de pessoas que podem até ter boas intenções.

Resumindo grosseiramente a história (vou deixar linkado no final do texto todos os mateirais úteis pra jogar alguma luz sobre esse caso), um tal professor Chierice recebeu grande destaque como “visionário” por ter descoberto como sintetizar fosfoetanolamina em laboratório e, sem nenhum tipo de formação na área médica/de saúde, acredita piamente que suas cápsulas de fosfoetanolamina são uma espécie de cura certa para “o câncer” (se soubesse quantos tipos de câncer existem, não sei se estaria tão certo disso…). Basicamente a droga era distribuída sem nenhum tipo de controle e critério, sendo produzida em uma escala absurda de 50 mil cápsulas por mês pela Universidade. Isso mesmo, pela UNIVERSIDADE!

Não queria fazer um post explicando detalhes metodológicos e legais sobre essa palhaçada que aconteceu (desde quando universidade tem que fabricar cápsula de “medicamento” pra população, meu bom Darwin?), mas quero aproveitar esse caso para tratar de uma das reações mais comuns e talvez a mais ignorante possível a quem criticou esse CRIME (sim, encorajar pacientes a largarem métodos terapêuticos convencionais pra se tratarem com uma substância – não medicamento – que não passou sequer da fase pré-clínica é um charlatanismo e um crime segundo a lei brasileira):

“Ain, mas tem muitos relatos de pessoas que tomarama fosfoetanolamina e foram curadas do câncer, a eficácia é comprovada”

Ou seja, um belo exemplo de post hoc, ergo propter hoc ou, “depois disso, logo, por causa disso”: uma falácia bastante comum e que se baseia na pressuposição de que qualquer evento que preceda algum efeito significativo aos nossos olhos seja a causa de tal efeito.

E é aqui que mora o perigo: vivemos em um país que valoriza demais a capacidade de se estocar conhecimento dentro da cachola, como disse em um post anterior. Aprendemos conteúdos avançados (em relação ao resto do mundo) sobre ciência já no ensino médio, começamos uma carreira de leitura de artigos científicos muito cedo na graduação, sabemos calcular forças eletromagnéticas, preparar soluções teóricas complexas e entendemos inclusive processos complicados de bioquímica celular: são conteúdos cobrados em provas. Mas temos uma noção muito elementar do que é ciência, como o método científico funciona, quais são suas bases e por que ele é tão importante (mas não como um deus dentro da ciência, que isso fique claro). Também desprezamos a Filosofia, que é uma disciplina inútil e com fim nela mesma, sem nenhum tipo de praticidade para nossas vidas.

Qual é o perigo disso tudo? Esse tipo de educação é que forma pessoas que vão se valer desse tipo de raciocínio para atacar qualquer crítica às mentiras em que se agarraram por conforto. Somos uma espécie de primata com um cérebro muito bom em reconhecer padrões e fazer associações. Deixe-me explicar o por quê: nós, hominíneos, evoluímos na savana africana durante alguns milhões de anos. A savana é um ambiente bastante hostil e, durante muito tempo, associarmos um farfalhar da vegetação ou um barulho estranho com a presença de uma serpente ou um possível predador era muito mais vantajoso do que de fato ir checar pra ver o que está causando o barulho. Daí vem a supersticiosidade religiosa, também. Se, após um ritual ou sacrifício, uma boa colheita ou caça era obtida, o que se perde ao repetir o ritual antes de toda vez que se semeia ou que se sai para caçar? Não fazê-lo pode resultar em uma catástrofe, mas repeti-lo diariamente pode trazer um benefício (que obviamente não está correlacionado com seu hábito).

Uma educação em metodologia científica faz-se necessária para desconstruir essa forma de pensamento em que correlacionamos e observamos padrões inexistentes. Entender dos mecanismos de açao da fosfoetanolamina ou saber que ela é sintetizada pelo próprio corpo é irrelevante para a questão: o que é significativo aqui é, em suma, entendermos que não é válido, em hipótese alguma, assumir que porque pessoas que fizeram uso da fosfoetanolamina e tiveram seu câncer curado ou reduzido, alcançaram tais resultados POR CAUSA da fosfoetanolamina. Não importa quanto conhecimento acumulado tenhamos, se não soubermos as bases de como determinar se uma correlação faz sentido ou não, seremos reféns de qualquer tipo de charlatanismo, como cristais, óleos sagrados, homeopatia, etc.

À primeira vista, tudo isso parece inocente, mas não é tão inocente assim quando pessoas deixam de seguir um tratamento médico para se submeterem a esse tipo de ‘experimentação’. E que se, suponhamos, um determinado câncer tenha uma taxa de mortalidade de 90% e os 10% que sobreviverem atribuem seu ‘sucesso’ ao uso de determinada técnica, quando podem ter sobrevivido por razões biológicas distintas (e que estão distribuídas ao acaso na população humana)?

Referências interessantes sobre a fosfoetanolamina:
Pirula: https://www.youtube.com/watch?v=F7H0b7vMR4c

Yuri Grecco: https://www.youtube.com/watch?v=eY9OEBCv9ds

Dráuzio Varella: https://www.youtube.com/watch?v=EbZJ3t8EsNA

E-farsas: http://www.e-farsas.com/pesquisador-descobre-que-a-fosfoamina-cura-cancer-sera.html

Ceticismo.net: http://ceticismo.net/2015/10/14/fosfoetanolamina-a-novela-continua-com-os-retardados-de-sempre/

Comunicado do IQ-USP: http://www5.iqsc.usp.br/esclarecimentos-a-sociedade/

O Brasil precisa de educação científica URGENTE!

Trabalhar com ciência, seja como educador, pesquisador ou divulgador, nunca foi nem será tarefa fácil em lugar algum. No entanto, o (duro) trabalho feito por cientistas e professores no Brasil parece estar sendo jogado no lixo nos últimos anos. A internet fez um ótimo trabalho em dar voz a muitas pessoas, mas trouxe um efeito colateral monstruoso: figuras sem conhecimento científico nenhum, tais como: Cauê Moura, Olavo de Carvalho, Nando Moura, entre outros diversos canais como “Você Sabia” e páginas do facebook, como “Fatos Desconhecidos”. Em casos como Olavo de Carvalho e Nando Moura, que além de analfabetos científicos, também são analfabetos políticos de direita que propagam todo tipo de hoax e destilam preconceitos em seus canais de formação de opinião (sim, esses dois sujeitos têm um público considerável no Brasil).NaoKahlo1

Mas a propagação da ignorância não habita só na direita política. Ambos os lados do espectro político apresentam fortes tendências anticientíficas (como podemos ver aqui). Esse estudo foi conduzido nos EUA, mas observando em que pé estão as coisas no Brasil, não me surpreenderia se os mesmos resultados fossem encontrados por aqui. Recentemente (22/10/2015), tive o desprazer de ler alguns tweets do coletivo feminista “Não Me Kahlo” – que se declara não homogêneo com base em um post divulgado anonimamente – acusando a pedofilia de não ser uma doença, mas simplesmente resultado de uma socialização patriarcal e de violência contra mulheres. Ora, mas que tipo de critério estão usando para definir o que é uma doença ou não? O pior é que, depois de destilar sua ignorância de sofá,afirmando que a existência de pedófilos vem da “socialização” e do “patriarcado”, citam o exemplo da homossexualidade, que já foi considerada doença e hoje não é mais, para justificar sua verborragia sem evidências.

Vamos lá, só pra não deixar isso passar batido: Eli Vieira, o nosso geneticista mirim, já escreveu em 2014, de forma resumida e simples, por que existem bons motivos para se considerar um pedófilo um doente (e que não tem culpa de sua condição, mas que se torna culpado e responsável ao assediar e estuprar um menor de idade) enquanto a NaoKahlo2homossexualidade é um ‘desvio de comportamento’ (não no sentido moral, mas em sentido estatístico, pelo amor de Darwin) que não acarreta nenhum sofrimento psicológico intrínseco em sua condição, mas um sofrimento pelo medo como seu comportamento é julgado pelas outras pessoas ao seu redor. Um pedófilo, diferentemente, tem consciência de sua condição e pode ou não vir a estuprar uma criança. Caso o faça, ele é um criminoso. Caso contrário, ele pode passar uma vida inteira em conflito psicológico interno por seu ‘desvio de comportamento’ (que, diga-se de passagem, é bastante incomum). O erro está em assumir que TODO acusado ou condenado por pedofilia (crime) é, de fato, um pedófilo e, reciprocamente, que todo pedófilo virá a abusar de uma criança.

Dada essa resposta a um caso isolado, vamos partir às generalizações: observo uma tendência absurda em figuras célebres (independentemente de seu posicionamento político) em se agarrarem às opiniões prévias, julgarem todo fato a partir de suas opiniões políticas, descartando todo tipo de evidência desfavorável a suportar seu ponto de vista e expondo apenas aquilo que acaricia sua opinião (e que muitas vezes é falso e foi demonstrado como falso há muito tempo atrás). O livro “O Mundo Assombrado Pelos Demônios”, de Carl Sagan, foi tão atual e preciso em descrever a realidade (e ele foi escrito há 20 anos atrás, quando eu sequer era nascido). Em minha curta vida, já presenciei: Olavo de Carvalho afirmando que a Pepsi usa fetos abortados como adoçante (e que o velho hoje NaoKahlo3diz não ter sido bem isso o que quis dizer… sei, nem ambiguidade ele pode alegar); Olavo de Carvalho afirmando que combustíveis fósseis não existem; coletivos feministas definindo pedofilia como socialização do homem no patriarcado (ué, os pais estão ensinando os filhos a serem pedófilos com o aval de um Estado e um sistema jurídico que criminaliza isso?); vi boa parte da internet, em páginas que se intitulam de esquerda, se curvar à astrologia como um sistema de crenças válido e que descreve a personalidade humana com grande precisão; vi boa parte das pessoas acreditar piamente que a homossexualidade e a identidade de gênero dos seres humanos são, exclusivamente, fruto de “construção social” – e aqui, podemos aproximar tal ideal com os de pessoas como Silas Malafaia.

Suzana Herculano-Houzel. Se você não conhece o trabalho dela, sugiro urgentemente se inteirar sobre a neurocientista que mais tem tido destaque na mídia (e que tem um trabalho científico invejável)

Suzana Herculano-Houzel. Se você não conhece o trabalho dela, sugiro urgentemente se inteirar sobre a neurocientista que mais tem tido destaque na mídia (e que tem um trabalho científico invejável)

A credulidade em informações reconfortantes é, infelizmente, parte da natureza humana. Todos nós estamos sujeito a vieses. E é por esse motivo que a avaliação e crítica dos pares deve ser uma constante em nossas vidas. Não podemos “proteger as mentiras convenientes” e atacar as “verdade inconvenientes”. Isso é uma inversão de valor com consequências e perigos tremendos, que irei abordar em outro post. Este post é para fazer um desabafo importante de um pensamento que tem me consumido faz tempo. Eu sou um estudante de Biologia que aspira, em algum momento da vida, ser professor ou pesquisador. Poderia estar gastando o meu tempo aprimorando essas habilidades, é claro. Serão minha fonte de sustento daqui algum tempo. Poderia estar lendo artigos científicos e tornando-os digeríveis para o grande público. Poderia estar passando ensinamentos sobre ciência adiante, melhorando minha capacidade de comunicação por escrita. Porém, antes de tomar qualquer passo em direção a esse tipo de trabalho, acredito que preciso quebrar uma barreira que impõe sérios limites a qualquer progresso no nível de instrução científica médio: essa barreira é, necessariamente, conciliar a Filosofia e o conhecimento, seja ele científico ou não. Por que isso se faz tão necessário? A ciência, sem filosofia e pensamento crítico sobre os processos metodológicos para atingir o que chamamos de ‘conhecimento’, se torna um campo do saber que, para as outras pessoas, pode ser percebido assim:

Um apanhado de curiosidades interessantes, mas sem nenhuma conexão prática com a realidade e muito menos conhecimento de como sabemos o que sabemos.

Infelizmente, esse é o ensino de ciências que temos, mesmo em escolas de ótima qualidade, no Brasil. A ciência se torna um punhado de curiosidades que o estudante lê em fontes de jornalismo como “Galileu”, “Superinteressante” e, em casos ainda piores, mais enviesados e sem nenhum tipo de procedência, em qualquer página da internet. Como o estudante não sabe distinguir os processos básicos a que uma ideia deve ser submetida para afirmarmos se ela é verdadeira ou não (em sentido pragmático, um verdade funcional), ele passa a aceitar qualquer tipo de informação que seja interessante e salte aos olhos. Ter conhecimentos científicos acumulados NÃO É, de forma alguma, garantia de que você esteja acumulando os conhecimentos corretos. E infelizmente nosso sistema educacional valoriza acúmulo de conhecimento, não a produção e a testabilidade do conhecimento.

Em suma, vou deixar dois vídeos excelentes sobre o assunto linkados ao final do texto. Na descrição dos mesmos, há uma infinidade de materiais tratando sobre esse assunto. Inclusive artigos científicos que correlacionam: a educação e acúmulo de conhecimento científico não tem nenhum efeito significativo em diminuir a credulidade em pseudociência. Já a educação sobre a filosofia e o método científico fazem diferenças significativas em diminuir a credulidade em práticas (no estudo, o exemplo utilizado é a ‘previsão do futuro’). Deixarei linkado também um trecho do livro de Sagan, que considero ser leitura obrigatória para todas as pessoas que querem ter algum pensamento crítico e não se conformam com qualquer informação.

Por fim, vou fazer um apelo final. Há algo que me desconcerta e que, isso sim, percebo como uma diferença na educação entre homens e mulheres e que, definitivamente, é culpa da sociedade: por que o público feminino em ambientes de divulgação científica é tão baixo, quando as mulheres são maioria numérica na sociedade? Por que existem tantas meninas que consideram o estudo de ciências chato, desinteressante, inútil, sem emotividade? Por que mesmo em grupos de feministas extremistas, vejo uma tendência à crença na astrologia e em outras pseudociências? Não seria uma quebra de paradigma, um rompimento no sistema muito maior, se mais mulheres se interessassem em discutir e aprender sobre ciência e filosofia e tivéssemos ainda mais figuras como Suzana Herculano-Houzel, Mayana Zatz, Jane Goodall, Susan Haack, Hipátia de Alexandria e tantas outras mulheres que foram figuras importantíssimas para a ciência e a filosofia (e que, infelizmente, não têm o devido reconhecimento – e entendo se isso for a razão para desestimular mulheres dentro da carreira científica, bem como o assédio que existe dentro da academia)? Eu estou cansado de que o padrão “astrologia é coisa pra menina” e “física e matemática é coisa de homem” continue se propagando. Quero ver mais e mais mulheres em posição de destaque na ciência, cada vez mais. E se o que eu digo soa machista, estou aberto para que me convença disso.

P.S.: Não falei sobre a fosfoetanolamina, mas fica pra um próximo post.

Boa leitura!

Boa leitura!

https://www.youtube.com/watch?v=PtFd97xm3gE
https://www.youtube.com/watch?v=J5ncvehkWMw
ateus.net/artigos/ceticismo/um-dragao-na-minha-garagem/pdf/

Emoção é receita da irracionalidade

Eu poderia resumir esse texto em um argumento, mas vou tentar ser mais detalhista. Sempre tive extrema dificuldade de empatizar por diversas situações de dificuldade e sofrimento humano e, por isso, sempre me senti no limite entre “ser humano” e “ser odiado”. No entanto, dificilmente nego ajuda a alguém que precisa, independentemente de quem seja essa pessoa. Para mim é mais fácil demonstrar uma preocupação com certa causa em forma de ação do que em forma de “isso me enoja”, “isso me revolta”, “isso me incomoda”, “eu odeio isso”. Acontece que se tornou muito difícil, devido a uma onda do que se convencionou como “pós-modernismo”, argumentar que não somos exatamente o que queremos ser. Eu, basicamente, não tenho os níveis de empatia (hormonalmente regulada, dã) que normalmente vejo ao meu redor. Empatia não se aprende. Não é algo que funcione na prática

Basicamente, sem nenhum estudo empírico (ou teórico mesmo, se me apresentarem uma fórmula matemática que descreva isso) uma multidão de pessoas AFIRMA, com certeza acima do normal, que QUALQUER COISA pode ser resultado do ambiente em que você está inserido. É cômodo, não? Atribuir uma plasticidade ao comportamento humano simplesmente por preguiça de estudar quais as bases e origens desse comportamento. É, você mesmo, que fala que X é construção social e apenas construção social. Você é preguiçoso.

E por que eu estou enchendo linhas com essa afirmação? Simples, porque hoje existe uma espécie de ‘teoria’ corrente (na qual a práxis é totalmente deturpada) de que devemos basear nosso julgamento moral no que é mais “empático”. Meu ponto central sobre esse tipo de julgamento é:

1) Nosso senso moral deve ser guiado pela empatia, especialmente pelo lado mais fraco (estou assumindo que isso seja verdade, o que não é);
2) Algumas pessoas tem pouca ou nenhuma empatia.

Ótimo, chegamos ao problema central. Se essas pessoas que têm dificuldade de empatizar, sejam elas autistas, misantropas, sociopatas ou qualquer outro tipo de desvio do padrão não têm empatia ou na maioria das vezes o senso moral delas é deturpado pela falta de empatia, temos poucas opções:

1) Ou elas não são capazes de agir de forma moralmente correta;
2) Ou elas só agem de forma moralmente correta quando baseiam suas ações na pouca empatia que possa restar (ou por algum tipo de comportamento socialmente aprendido – acho que isso se aplicaria ao caso do sociopata oculto);
3) Ou elas agem contra as regras morais, em muitos casos (sociopatas, novamente – mas alguns deles podem inclusive ser membros da sociedade que nunca vão cometer um crime) mas também agem de forma moralmente correta, baseados em:

a) Senso moral empático aprendido socialmente – o que se convenciona como “norma social”;
b) Por algo independente disso.

Eu poderia apresentar diversas hipóteses alternativas pra explicar que uma ação correta nem sempre está atrelada ao caminho mais empático. Mas o experimento do link abaixo já faz isso de forma muito boa. Seja lá qual for o motivo pelo qual existem membros que conseguem conviver socialmente e ainda fazerem boas escolhas morais, a explicação sociológica não me parece satisfatória, porque seria de se esperar que, em todas as culturas, membros “tortos” em senso empático deveriam aprender APENAS regras sociais que sejam úteis à manutenção de sua aceitação social. Eu realmente não tenho nenhum DADO pra afirmar isso, mas não me parece que seja impossível encontrar pessoas sem esse “norte” chamado empatia que agem além da “convenção social”, realizando julgamentos morais que não são estritamente necessários para se manterem como “membros socialmente aceitáveis”.

Por outro lado, temos os sujeitos extremamente empáticos. Pelo que o experimento mostra, quanto maior seu grau de empatia, menor é a chance de você dosar a punição que deseja ser aplicada em qualquer ser humano. As bases pra isso podem ser discutidas, vou ficar feliz em ouvir a opinião de vocês. Assim como vou ficar feliz em ouvir argumentos diferentes para explicar como devemos guiar nossas escolhas morais. Mas o que quero deixar claro com esse texto é:

1) não precisamos basear nosso senso moral em empatia, por duas razões:
a) ela é seletiva (você precisa ter algum argumento muito forte pra demonstrar que sempre apoiará o lado correto);
b) ela não é universal, algumas pessoas são capazes de fazer julgamentos morais mesmo sem se deixarem guiar exclusivamente pela empatia;

2) Precisamos tomar cuidado quando essa cobrança de empatia se enraiza nas pessoas e quando tendemos a julgar uma pessoa pelo grau de “revolta” ou “empatia” ela apresenta a diferentes situações. Muitas vezes isso não significa que a punição a ser decidida é a mais justa e, tampouco isso quer dizer que o culpado é sempre “a fonte de todo o mal”.

Não baseemos todo o nosso senso moral em emoções. Isso é a receita pra fazer caquinha.

Texto ao qual faço referência: http://xibolete.uk/empatia/

O que é o conhecimento? (parte II)

Primeiramente peço desculpas pelo grande atraso em escrever esse post (mais de 2 anos se passaram, hehe). No entanto, tratou-se de um período de amadurecimento intelectual e organização de ideias por minha parte. Penso em reestruturar o blog e adicionar mais referências aos textos, bem como detalhá-los de melhor forma. E, claro, ser mais ativo por aqui!

Sem mais delongas, vamos tratar do assunto desse post: mais definições para a discussão do que é o conhecimento epistemológico. Vou ater-me na reflexão do que é a verdade e como podemos determiná-la nas situações do cotidiano.

Quando falamos de epistemologia ou teoria do conhecimento, definimos esse ramo da filosofia como responsável pelo estudo do conhecimento (que foi discutido no primeiro post do blog), mas essa definição não parece óbvia para os mais questionadores. Um leitor mais rigoroso, ao se deparar com a definição de conhecimento como “toda e qualquer crença verdadeira e justificada”, pode apresentar, de cara, uma objeção muito simples e, no entanto, muito poderosa: “mas afinal, o que é a verdade?”

Várias tentativas de se definir e determinar a verdade foram feitas por filósofos e estudiosos ao longo do tempo, mas algumas delas merecem um grande destaque: são elas a “verdade por correspondência”, “verdade como coerência” e “verdade pragmática”. Vejamos, a seguir, algumas explicações sobre estas teorias sobre a verdade.

A verdade por correspondência diz que o que determina se uma dada proposição é verdadeira ou não é a simples correspondência entre a afirmação dita verdadeira e as características reais do mundo tal como ele é. Esta é uma definição poderosa de verdade porque minimiza a relativização da verdade em qualquer nível, uma vez que a verdade não se apresenta de uma maneira para uma pessoa e de outra forma para outra pessoa. A definição de verdade por correspondência tem sua origem nos escritos de Aristóteles (no livro IV da Metafísica), no qual ele escreve que

“uma afirmação só é verdadeira se afirma que o que é, é ou que o que não é, não é.”

Essa é uma frase que resume bem o conceito de verdade como definido por Aristóteles, apesar de parecer um pouco confusa quando lida pela primeira vez. Entretanto, um exemplo simples de afirmação falsa, segundo essa definição, é quando se afirma que é verdade algo que na verdade não é (por exemplo, se eu te disser que sou um analfabeto total  e você tiver evidências de que sou eu mesmo quem escrevo esse monte de abobrinha aqui, minha proposição não é verdadeira porque não possui correspondência entre o que digo ser verdade e o que é observado) ou quando se afirma que não é  verdade algo que, na realidade, é (p. ex: te digo que o Brasil nunca possuiu um presidente do sexo feminino, mas se você se dirigir ao Palácio do Planalto, verá que temos uma presidenta chamada Dilma Rousseff no momento atual da história brasileira, o que torna minha afirmação não-verdadeira). Apesar de todo o poder que essa definição de verdade possui, ela falha em alguns pontos: em primeiro lugar, é necessário definir o que se determina como correspondência. Comumente se define como um simples retrato do mundo tal como ele é. No entanto, o problema com essa afirmação é o seguinte: ela é clara para proposições descritivas sobre o mundo, mas não é nada clara quando tratamos de proposições normativas, por exemplo. Há uma relação de correspondência com o mundo quando dizemos que “devemos cuidar do espaço público” ou “é moralmente errado matar pessoas inocentes”? Não parece ser este o caso. Portanto, torna-se complicado adotar uma definição de verdade por correspondência quando se trata de proposições que dizem algo sobre como as coisas devem ser.

 Já a verdade por coerência consiste, basicamente, em afirmar que a verdade depende de uma relação adequada com um sistema de proposições, que seria a coerência. Essa noção de verdade foi apresentada por Espinosa (1632-1677) e Hegel (1770-1831) e baseia-se em uma consistência lógica interna entre proposições. No entanto, é importante, primeiramente, definir o que é a tal relação de coerência: geralmente, a mais utilizada é a noção de implicação lógica ou decorrência lógica de um determinado sistema de proposições. Um exemplo clássico de sistema coerentista são as verdades matemáticas: a partir de um certo ponto de partida, com alguns postulados simples, todas as outras operações e funções matemáticas podem ser derivadas logicamente. No entanto, não é claro se exista algum sistema real no qual a coerência consiga basear toda as noções de verdade.

Além disso, o sistema coerentista cai em um problema de raciocínio circular. O raciocínio é mais ou menos o seguinte: define-se a verdade em função do conceito de coerência e define-se a coerência com uma noção de verdade implícita na definição. Parece um raciocínio complexo, mas é simples: um coerentista pode afirmar a partir de proposições lógicas que ele determina como coerentes entre si, que a verdade é X. No entanto, se tomarmos um outro sistema de proposições coerentes entre si, podemos chegar a uma verdade Y. Nesse sentido, o que se quer determinar como verdadeiro está intrinsecamente ligado ao raciocínio e às proposições que se adota como base: ou seja, a verdade é verdade porque deriva da coerência entre as proposições adotada e a coerência das proposições é evidente porque resulta na verdade. Raciocínio circular, não?

Apenas para ilustrar um problema sério com essa noção de verdade: tomemos como exemplo o caso de um lunático que crê piamente ser a encarnação de Jesus Cristo. Dentro de seu sistema de crenças e experiências pessoais, sua crença em ser Jesus Cristo é verdadeira pois coere com todos os seus pressupostos. Já as pessoas que convivem e estão ao redor dele (em sua maioria) não creem que esse sujeito seja a encarnação de Jesus. Essa é uma redução ao absurdo para demonstrar que, não necessariamente, porque ideias são coerentes internamente, a conclusão desse sistema seja necessariamente verdadeira. A pergunta que isso suscita é: que sistema de proposições uma determinada alegação deve ser coerente para ser verdadeira? Seria isso culturalmente determinado? Pessoalmente determinado? Seria um sistema determinado externamente ao indivíduo e à cultura?

Por fim, a última definição de verdade que gostaria de abordar é a verdade pragmática, que se baseia em definir como verdadeira qualquer afirmação que seja útil de algum modo determinado. Útil, aqui, não possui o sentido atribuído normalmente pelo senso comum, mas sim o sentido de uma utilidade cognitiva: que unifique a experiência que temos no mundo de forma a gerar ‘verdades mais gerais’. Para um pragmático, a verdade é uma validação de ideias selecionadas quando postas em prática no mundo real. No entanto, o pragmatismo adota uma definição relativista de verdade, pois uma afirmação que seja definida como útil em um determinado contexto, sociedade, época, lugar ou pessoa pode não ser útil caso uma dessas variáveis seja modificada. Desse modo, a verdade enquanto conceito pragmático necessita de uma melhor definição da utilidade para sair de tal relativismo epistemológico. Usualmente a definição que pragmáticos utilizam é, justamente, relativista em sua essência: a verdade é algo que varia de acordo com o momento e a utilidade da ideia.

Baseei este texto no capítulo 4 do livro de Moser, Mulder e Trout, A teoria do conhecimento.

O que é o conhecimento? (parte I)

O que é o conhecimento? É possível conhecer? Até que ponto os conhecimentos são verdadeiros? Bom, estas são algumas questões que intrigam filósofos epistemológicos, cientistas e até mesmo curiosos.

Antes de mais nada, é necessário fazer uma distinção entre conhecimento, dado e informação para conceituar conhecimento. Dado é um código passível de interpretação ou não. Um número solto, por exemplo, não possui significado ou interpretação, apenas um valor absoluto. Já a informação é um dado organizado, como este texto que você lê. Ele possui significado passível de ser interpretado pelo seu cérebro. Mas e o conhecimento?

Platão, detalhe do quadro “Escola de Atenas” por Rafael

Um dos conceitos mais amplamente utilizados para o conhecimento é o proposto por Platão. Para Platão, conhecimento é um conjunto de crenças verdadeiras e justificadas. Explicando o conceito: para classificar algo como conhecimento, é necessário, primeiramente, crer no que se conhece (Mas que óbvio, não? Ou você consegue pensar que conhece alguma coisa na qual você não acredita?). Em segundo lugar, o conhecimento deve ser verdadeiro, ou seja, não é possível classificar como conhecimento uma mentira. Por fim, o conhecimento deve ser bem justificado, para que seja sólido, irrefutável e possua capacidade de convencimento.

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Um esquema sobre o conhecimento como descrito por Platão

Essa definição de conhecimento é a que eu adoto, apesar de ter algumas limitações.  Assim como a definição usada pela tecnologia da informação (O conhecimento é informação organizada de forma lógica, com um propósito ou utilidade) apresenta algumas limitações, a definição platônica de conhecimento também possui restrições. No entanto, é preciso um conceito claro para podermos debater ou construir textos sobre alguma coisa.

Bom pessoal, essa foi a primeira parte do post sobre conhecimento, em breve escrevo a parte II. Forte abraço e paz para todos.