Um Olhar Cético

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O que é o conhecimento? (parte II)

Primeiramente peço desculpas pelo grande atraso em escrever esse post (mais de 2 anos se passaram, hehe). No entanto, tratou-se de um período de amadurecimento intelectual e organização de ideias por minha parte. Penso em reestruturar o blog e adicionar mais referências aos textos, bem como detalhá-los de melhor forma. E, claro, ser mais ativo por aqui!

Sem mais delongas, vamos tratar do assunto desse post: mais definições para a discussão do que é o conhecimento epistemológico. Vou ater-me na reflexão do que é a verdade e como podemos determiná-la nas situações do cotidiano.

Quando falamos de epistemologia ou teoria do conhecimento, definimos esse ramo da filosofia como responsável pelo estudo do conhecimento (que foi discutido no primeiro post do blog), mas essa definição não parece óbvia para os mais questionadores. Um leitor mais rigoroso, ao se deparar com a definição de conhecimento como “toda e qualquer crença verdadeira e justificada”, pode apresentar, de cara, uma objeção muito simples e, no entanto, muito poderosa: “mas afinal, o que é a verdade?”

Várias tentativas de se definir e determinar a verdade foram feitas por filósofos e estudiosos ao longo do tempo, mas algumas delas merecem um grande destaque: são elas a “verdade por correspondência”, “verdade como coerência” e “verdade pragmática”. Vejamos, a seguir, algumas explicações sobre estas teorias sobre a verdade.

A verdade por correspondência diz que o que determina se uma dada proposição é verdadeira ou não é a simples correspondência entre a afirmação dita verdadeira e as características reais do mundo tal como ele é. Esta é uma definição poderosa de verdade porque minimiza a relativização da verdade em qualquer nível, uma vez que a verdade não se apresenta de uma maneira para uma pessoa e de outra forma para outra pessoa. A definição de verdade por correspondência tem sua origem nos escritos de Aristóteles (no livro IV da Metafísica), no qual ele escreve que

“uma afirmação só é verdadeira se afirma que o que é, é ou que o que não é, não é.”

Essa é uma frase que resume bem o conceito de verdade como definido por Aristóteles, apesar de parecer um pouco confusa quando lida pela primeira vez. Entretanto, um exemplo simples de afirmação falsa, segundo essa definição, é quando se afirma que é verdade algo que na verdade não é (por exemplo, se eu te disser que sou um analfabeto total  e você tiver evidências de que sou eu mesmo quem escrevo esse monte de abobrinha aqui, minha proposição não é verdadeira porque não possui correspondência entre o que digo ser verdade e o que é observado) ou quando se afirma que não é  verdade algo que, na realidade, é (p. ex: te digo que o Brasil nunca possuiu um presidente do sexo feminino, mas se você se dirigir ao Palácio do Planalto, verá que temos uma presidenta chamada Dilma Rousseff no momento atual da história brasileira, o que torna minha afirmação não-verdadeira). Apesar de todo o poder que essa definição de verdade possui, ela falha em alguns pontos: em primeiro lugar, é necessário definir o que se determina como correspondência. Comumente se define como um simples retrato do mundo tal como ele é. No entanto, o problema com essa afirmação é o seguinte: ela é clara para proposições descritivas sobre o mundo, mas não é nada clara quando tratamos de proposições normativas, por exemplo. Há uma relação de correspondência com o mundo quando dizemos que “devemos cuidar do espaço público” ou “é moralmente errado matar pessoas inocentes”? Não parece ser este o caso. Portanto, torna-se complicado adotar uma definição de verdade por correspondência quando se trata de proposições que dizem algo sobre como as coisas devem ser.

 Já a verdade por coerência consiste, basicamente, em afirmar que a verdade depende de uma relação adequada com um sistema de proposições, que seria a coerência. Essa noção de verdade foi apresentada por Espinosa (1632-1677) e Hegel (1770-1831) e baseia-se em uma consistência lógica interna entre proposições. No entanto, é importante, primeiramente, definir o que é a tal relação de coerência: geralmente, a mais utilizada é a noção de implicação lógica ou decorrência lógica de um determinado sistema de proposições. Um exemplo clássico de sistema coerentista são as verdades matemáticas: a partir de um certo ponto de partida, com alguns postulados simples, todas as outras operações e funções matemáticas podem ser derivadas logicamente. No entanto, não é claro se exista algum sistema real no qual a coerência consiga basear toda as noções de verdade.

Além disso, o sistema coerentista cai em um problema de raciocínio circular. O raciocínio é mais ou menos o seguinte: define-se a verdade em função do conceito de coerência e define-se a coerência com uma noção de verdade implícita na definição. Parece um raciocínio complexo, mas é simples: um coerentista pode afirmar a partir de proposições lógicas que ele determina como coerentes entre si, que a verdade é X. No entanto, se tomarmos um outro sistema de proposições coerentes entre si, podemos chegar a uma verdade Y. Nesse sentido, o que se quer determinar como verdadeiro está intrinsecamente ligado ao raciocínio e às proposições que se adota como base: ou seja, a verdade é verdade porque deriva da coerência entre as proposições adotada e a coerência das proposições é evidente porque resulta na verdade. Raciocínio circular, não?

Apenas para ilustrar um problema sério com essa noção de verdade: tomemos como exemplo o caso de um lunático que crê piamente ser a encarnação de Jesus Cristo. Dentro de seu sistema de crenças e experiências pessoais, sua crença em ser Jesus Cristo é verdadeira pois coere com todos os seus pressupostos. Já as pessoas que convivem e estão ao redor dele (em sua maioria) não creem que esse sujeito seja a encarnação de Jesus. Essa é uma redução ao absurdo para demonstrar que, não necessariamente, porque ideias são coerentes internamente, a conclusão desse sistema seja necessariamente verdadeira. A pergunta que isso suscita é: que sistema de proposições uma determinada alegação deve ser coerente para ser verdadeira? Seria isso culturalmente determinado? Pessoalmente determinado? Seria um sistema determinado externamente ao indivíduo e à cultura?

Por fim, a última definição de verdade que gostaria de abordar é a verdade pragmática, que se baseia em definir como verdadeira qualquer afirmação que seja útil de algum modo determinado. Útil, aqui, não possui o sentido atribuído normalmente pelo senso comum, mas sim o sentido de uma utilidade cognitiva: que unifique a experiência que temos no mundo de forma a gerar ‘verdades mais gerais’. Para um pragmático, a verdade é uma validação de ideias selecionadas quando postas em prática no mundo real. No entanto, o pragmatismo adota uma definição relativista de verdade, pois uma afirmação que seja definida como útil em um determinado contexto, sociedade, época, lugar ou pessoa pode não ser útil caso uma dessas variáveis seja modificada. Desse modo, a verdade enquanto conceito pragmático necessita de uma melhor definição da utilidade para sair de tal relativismo epistemológico. Usualmente a definição que pragmáticos utilizam é, justamente, relativista em sua essência: a verdade é algo que varia de acordo com o momento e a utilidade da ideia.

Baseei este texto no capítulo 4 do livro de Moser, Mulder e Trout, A teoria do conhecimento.

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