Um Olhar Cético

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A fosfoetanolamina, post hoc ergo propter hoc

Estou um pouco atrasado para falar sobre o assunto, é claro, mas não poderia deixar de escrever algo sobre a última notícia de cunho científico que teve destaque na mídia do Brasil. Diversos vlogueiros comentaram sobre o assunto e mesmo o Dráuzio Varella teve que fazer uma matéria para esclarecer essa questão nebulosa sobre um dos casos mais mal contados no que se refere à má administração de uma universidade e à irresponsabilidade por parte de pessoas que podem até ter boas intenções.

Resumindo grosseiramente a história (vou deixar linkado no final do texto todos os mateirais úteis pra jogar alguma luz sobre esse caso), um tal professor Chierice recebeu grande destaque como “visionário” por ter descoberto como sintetizar fosfoetanolamina em laboratório e, sem nenhum tipo de formação na área médica/de saúde, acredita piamente que suas cápsulas de fosfoetanolamina são uma espécie de cura certa para “o câncer” (se soubesse quantos tipos de câncer existem, não sei se estaria tão certo disso…). Basicamente a droga era distribuída sem nenhum tipo de controle e critério, sendo produzida em uma escala absurda de 50 mil cápsulas por mês pela Universidade. Isso mesmo, pela UNIVERSIDADE!

Não queria fazer um post explicando detalhes metodológicos e legais sobre essa palhaçada que aconteceu (desde quando universidade tem que fabricar cápsula de “medicamento” pra população, meu bom Darwin?), mas quero aproveitar esse caso para tratar de uma das reações mais comuns e talvez a mais ignorante possível a quem criticou esse CRIME (sim, encorajar pacientes a largarem métodos terapêuticos convencionais pra se tratarem com uma substância – não medicamento – que não passou sequer da fase pré-clínica é um charlatanismo e um crime segundo a lei brasileira):

“Ain, mas tem muitos relatos de pessoas que tomarama fosfoetanolamina e foram curadas do câncer, a eficácia é comprovada”

Ou seja, um belo exemplo de post hoc, ergo propter hoc ou, “depois disso, logo, por causa disso”: uma falácia bastante comum e que se baseia na pressuposição de que qualquer evento que preceda algum efeito significativo aos nossos olhos seja a causa de tal efeito.

E é aqui que mora o perigo: vivemos em um país que valoriza demais a capacidade de se estocar conhecimento dentro da cachola, como disse em um post anterior. Aprendemos conteúdos avançados (em relação ao resto do mundo) sobre ciência já no ensino médio, começamos uma carreira de leitura de artigos científicos muito cedo na graduação, sabemos calcular forças eletromagnéticas, preparar soluções teóricas complexas e entendemos inclusive processos complicados de bioquímica celular: são conteúdos cobrados em provas. Mas temos uma noção muito elementar do que é ciência, como o método científico funciona, quais são suas bases e por que ele é tão importante (mas não como um deus dentro da ciência, que isso fique claro). Também desprezamos a Filosofia, que é uma disciplina inútil e com fim nela mesma, sem nenhum tipo de praticidade para nossas vidas.

Qual é o perigo disso tudo? Esse tipo de educação é que forma pessoas que vão se valer desse tipo de raciocínio para atacar qualquer crítica às mentiras em que se agarraram por conforto. Somos uma espécie de primata com um cérebro muito bom em reconhecer padrões e fazer associações. Deixe-me explicar o por quê: nós, hominíneos, evoluímos na savana africana durante alguns milhões de anos. A savana é um ambiente bastante hostil e, durante muito tempo, associarmos um farfalhar da vegetação ou um barulho estranho com a presença de uma serpente ou um possível predador era muito mais vantajoso do que de fato ir checar pra ver o que está causando o barulho. Daí vem a supersticiosidade religiosa, também. Se, após um ritual ou sacrifício, uma boa colheita ou caça era obtida, o que se perde ao repetir o ritual antes de toda vez que se semeia ou que se sai para caçar? Não fazê-lo pode resultar em uma catástrofe, mas repeti-lo diariamente pode trazer um benefício (que obviamente não está correlacionado com seu hábito).

Uma educação em metodologia científica faz-se necessária para desconstruir essa forma de pensamento em que correlacionamos e observamos padrões inexistentes. Entender dos mecanismos de açao da fosfoetanolamina ou saber que ela é sintetizada pelo próprio corpo é irrelevante para a questão: o que é significativo aqui é, em suma, entendermos que não é válido, em hipótese alguma, assumir que porque pessoas que fizeram uso da fosfoetanolamina e tiveram seu câncer curado ou reduzido, alcançaram tais resultados POR CAUSA da fosfoetanolamina. Não importa quanto conhecimento acumulado tenhamos, se não soubermos as bases de como determinar se uma correlação faz sentido ou não, seremos reféns de qualquer tipo de charlatanismo, como cristais, óleos sagrados, homeopatia, etc.

À primeira vista, tudo isso parece inocente, mas não é tão inocente assim quando pessoas deixam de seguir um tratamento médico para se submeterem a esse tipo de ‘experimentação’. E que se, suponhamos, um determinado câncer tenha uma taxa de mortalidade de 90% e os 10% que sobreviverem atribuem seu ‘sucesso’ ao uso de determinada técnica, quando podem ter sobrevivido por razões biológicas distintas (e que estão distribuídas ao acaso na população humana)?

Referências interessantes sobre a fosfoetanolamina:
Pirula: https://www.youtube.com/watch?v=F7H0b7vMR4c

Yuri Grecco: https://www.youtube.com/watch?v=eY9OEBCv9ds

Dráuzio Varella: https://www.youtube.com/watch?v=EbZJ3t8EsNA

E-farsas: http://www.e-farsas.com/pesquisador-descobre-que-a-fosfoamina-cura-cancer-sera.html

Ceticismo.net: http://ceticismo.net/2015/10/14/fosfoetanolamina-a-novela-continua-com-os-retardados-de-sempre/

Comunicado do IQ-USP: http://www5.iqsc.usp.br/esclarecimentos-a-sociedade/

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