Um Olhar Cético

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Por uma ética da internet

Dois mil e dezesseis é um ano que começou com tudo. Já na virada, li diversos relatos, denúncias, textões e fotos de fontes “problematizadoras. Um deles tomou certa proporção e foi uma história bastante curiosa: Wellington Monteiro, um segurança em um evento de Reveillon, foi acusado, via textão de facebook, de ter estuprado uma moça em uma festa. Acusações criminais, ao contrário do que o imaginário estabelecido dentro de certos movimentos corporativistas de gênero, são levadas a sério pelo nosso sistema judiciário. No entanto, algumas acusações, especialmente de crimes hediondos (e o estupro tem se mostrado, no meio do corporativismo de gênero, o crime mais hediondo existente e o que mais abala emoções) são levadas a sério não apenas pelo sistema judiciário (ok, eu vou fazer uma ressalva, nem sempre é fácil denunciar um estupro, mas quando tal denúncia é encaminhada e feita com seriedade para autoridades competentes, ela é SIM tratada com seriedade merecida), mas são também levadas a sério pela sociedade civil.

Ok, feita essa pontuação, vamos ao que acontece quando uma pessoa torna esse tipo de ocorrência pública: ao denunciar um crime, você pode escolher se manter não identificado(a) ou fazer uma denúncia pública, que em tempos de facebook se tornou algo ainda mais corriqueiro. Quando se denuncia um crime via textão e o autor do textão é a própria vítima, isso gera um viés absurdo na maioria dos leitores, pois há um conflito de interesses em questão. Vejamos as duas linhas de pensamento mais comuns nesses casos:

  • A vítima está contando uma versão fiel dos fatos e está denunciando os responsáveis pelo crime de forma objetiva;
  • A vítima está distorcendo fatos, está fazendo uma denúncia falsa ou atacando instituições ou pessoas responsáveis pelo ocorrido;

Você se identifica, em teoria, com alguma dessas opções ao ler um textão? Se sim, reveja seu posicionamento. Na primeira delas, você está colocando a vítima num pedestal de objetividade que não está necessariamente ajudando na busca pela verdade. Na segunda opção, acusar a vítima de fazer uma falsa denúncia é não apenas indelicado e insensível, mas também é um ceticismo contraproducente para a verificação da veracidade da acusação. Não parece ser razoável escolher nenhum dos extremos.

Esse foi apenas um exemplo para ilustrar como a tomada de decisões extremadas e a demonização do outro extremo (e junto disso, a demonização de todo o espectro de posições intermediárias) é imbecilizante. Temos mais outros exemplos, como por exemplo o caso ocorrido no Quitandinha, em São Paulo. Se apegar a um dos lados que atende melhor à sua visão e interpretação de fatos, atropelando direitos humanos básicos e negando o próprio processo investigativo são sempre improdutivas.

É por isso que uma ética da internet se faz necessária: já não se trata apenas de postar conteúdo que te interessa. Já não se trata de ter compromisso com a verdade. Já não se trata de tomar atitudes que afetam apenas o dono de determinado perfil. Vidas e reputações podem ser destruídas, reivindicações absurdas são feitas (como a perda de guarda de crianças adotadas, fechamento de bares, prisão e perda de emprego de supostos estupradores) e, do outro lado do espectro, negar a existência de um crime apenas dificulta a vida e a sobrevivência da vítima. Quebrar o silêncio não é fácil e é preciso suporte para que o processo investigativo seja feito. Negar uma denúncia real causa sofrimento e consequências para a vítima, assim como uma reação extremamente emotiva e irracional traz consequências para os acusados de um determinado crime. É preciso não apenas ponderação para optar pelo “meio termo”, mas também para que haja uma autocrítica sobre a consequência das ações tomadas dentro da rede. O conteúdo que consumimos e que produzimos em nossos perfis já não é mais isento de responsabilidade moral e é preciso levar esse debate adiante.

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